I’m A Loser

E aí, galera?

Trago aqui mais um capítulo de O Baterista. Foi o que eu mais gostei de fazer, fiquei super satisfeita com o final (na minha humilde opinião e também na da minha mãe é super fofo). Não fofo, mas eu penso que deixa uma sensação de quero mais.

Demorei mais para postar esse capítulo, pois tive que fazê-lo em apenas um dia (os outros dois eu já tinha pronto antes de trazer para o blog o primeiro desde janeiro). O nome da música do capítulo é I’m A Loser, dos Beatles (tinha que ser kkk).

Vou parar de digitar e deixar logo vocês desfrutarem dele. Tenham uma boa leitura!


Um grito fraco, vindo do topo das escadas, mudou a direção da fivela do cinto. O “pai!” saiu da boca de um garoto magro, quase anoréxico. Muito provavelmente ele seria Kahin. Uma fita de sangue apareceu, segundos depois, no braço de Faith. Ela apoiou a mão no local, e Ringo esperou até que o homem saísse para perguntá-la se estava tudo bem.

Mansur, instantes depois, jogou o cinto sobre o sofá, impaciente. Perguntou-se o que estava fazendo, a que ponto tinha chegado. O rapaz olhava a situação assustado. Ótimo, agora ele pareceria um monstro para o desconhecido. Todos os presentes continuavam quietos, olhando uns para os outros. Qual pecado ele tinha cometido dessa vez? Só não queria um inglês riquinho tentando oferecer ajuda para a sua família. Uma coisa que Mansur havia aprendido sobre o povo da Inglaterra era que, se vissem alguém com menos dinheiro do que eles, já ficavam com pena. E se não tivessem pena, adquiriam nojo. O homem demorava a pegar confiança em ingleses. Seu maior desejo era ter de volta a sua casa no Paquistão. Embora a Inglaterra oferecesse uma condição de vida melhor, ele nunca foi feliz ali.

Mansur deixou o cômodo com a mesma imponência que entrou, cruzando os olhos com os do garoto. No entanto, não teve coragem de encarar Faith ou a esposa. Foi muita burrice tentar bater nela, pensou. Quando terminou de subir as escadas, e passou ao lado do filho mais velho, sussurrou:

– Obrigado.

Kahin ficou confuso com o agradecimento do pai, mas sabia que era por ter impedido que ele machucasse Faith. Essas coisas nós fazemos sem pensar, no calor do momento. Kahin desceu as escadas com um pouco de dificuldade. Olhou, embaraçado, para o rapaz de costas ao lado de sua irmã. Ele, com certeza, era o motivo da briga.

– O que aconteceu aqui? – perguntou Kahin, em direção à mãe.

– Meu filho – a mulher disse, em um suspiro – eu não sei o que houve com seu pai…

Quando Kahin olhou para o lado, deu um pulo. O quê ele estava fazendo ali? Ringo Starr? Isso tudo era real? Respirou fundo e manteve a calma. Fez o que o pai deveria ter feito: mesmo sem entender o que um membro dos Beatles estava fazendo ali, o cumprimentou, tentando não transparecer o seu nervosismo.

– Prazer – disse, em um aperto de mão – meu nome é Kahin.

Um sorriso nasceu na boca de Ringo. Era a primeira pessoa daquela casa que não o recebia de forma exagerada.

– Eu sou o Ringo, prazer – respondeu.

O garoto, que aparentava ter uns vinte anos, puxou duas cadeiras para que eles se sentassem. Não pareceu muito abalado com a cena que aconteceu há pouco. Kahin acabou confessando ser fã dos Beatles, o que aliviou um pouco o clima. Ele já tinha ido a um ou dois shows, então a sua reação não foi tão exagerada como a de Thomas. O caçula logo se sentou à mesa também, sentindo-se extasiado de estar conversando com um de seus ídolos.

Faith foi até a mãe, que estava pensativa no canto.

– Machucou, minha filha? – ela logo perguntou, exasperada.

Faith falou que não havia sido nada, passando água no arranhão.

– Mamãe – ela chamou, nervosa, apoiada no balcão da cozinha – o Ringo pode dormir aqui por uns dias?

Ayesha arregalou os olhos. O que Faith tinha em mente, afinal? Não era possível que estivesse trazendo esse rapaz para casa visando o seu dinheiro, como Mansur desconfiou. Seus pais nunca deram a ela essa educação.

– Você está doida, Faith? Que pergunta é essa agora? – Ayesha lhe respondeu, mal-humorada. – Isso daqui não é a casa da mãe Joana, onde você traz quem quiser!

Faith se encolheu ao pensar que ele estaria escutando tudo lá da sala.

– Mamãe, ele vai ouvir tudo! – interveio, com o dedo indicador levantado em frente à boca. – Ringo acabou me pedindo isso, e eu concordei, sem pensar direito. Eu não posso mais voltar atrás, ainda mais depois do vexame que o papai fez.

Faith rapidamente explicou a história para a mãe, citando que Ringo foi expulso de casa e que, com ele ali, Kahin ficaria distraído.

Ayesha puxava alguns fios de cabelo de sua cabeça, inconscientemente. Fazia aquilo quando estava sem escapatória, como naquele momento. Mansur não ia gostar nada desse garoto em sua casa. Porém, a mulher já estava cheia de tudo que tinha acontecido e, se não concordasse, criaria mais uma situação constrangedora.

– Está bom, está bom – nessa hora, um sorriso se abriu no rosto de Faith, quase sem querer – contanto que isso não vá causar mais dor de cabeça para seu pai.

Faith não tinha certeza que aquilo iria se concretizar. Não entendeu os motivos de Mansur para ter aquele surto. Se bem que, na verdade, nenhum motivo explicava o que ele teria feito se Kahin não tivesse vindo na hora.

Faith foi até a sala, sentando-se com eles, ao lado de Ringo. Ela estava de frente para Thomas, mas esse quase não a viu se aproximar. O baterista, que no momento escutava Kahin falar, virou um pouco a cabeça e a olhou. Faith balançou a cabeça para cima e para baixo, discretamente. Esperava que ele compreendesse o sinal: estava tudo certo com a sua mãe, e o rapaz poderia ficar ali por um tempo. Ringo deu um sorriso de canto, preso na conversa com os irmãos da garota. Embora o papo estivesse distraindo-o, seu coração ainda batia forte pelos últimos acontecimentos.

– Ah! – Kahin exclamou, mudando de assunto. – Vocês ainda não disseram como se conheceram.

Ringo encarou Faith, perguntando, com o olhar, quem iria responder o seu irmão. Ela começou a falar, gaguejando um pouco:

– Eu estava indo à biblioteca, então…

Ringo a interrompeu, continuando a estória:

– Eu acabei esbarrando na Faith, e ela caiu no lago. Só que consegui tirá-la de lá, e ofereci a carona.

Ele não entendeu muito bem o porquê dela ter escondido que estava indo ao médico, mas, de qualquer modo, era incabível que Ringo dissesse ter empurrado para dentro do lago a irmã dos rapazes. Além de uma má impressão, causaria uma sessão de perguntas, e ele não estava muito afim disso, depois de tudo que já havia ocorrido. Porém, sabia bem que, cedo ou tarde, teria que explicar-se para a garota. Os meninos sentiram-se satisfeitos com a versão da estória inventada pelos dois, e instantes depois a mãe de Faith trouxe copos e uma jarra com suco de uva. Todos aceitaram a bebida, e a mulher acabou sentando-se à mesa também.

– Ai, meu rapaz! Desculpe-me pelo meu marido, ele não sabe o que faz – disse, corada de vergonha – seu nome é Bingo, não é?

O Beatle viu os dois garotos soltando uma risada, apoiando a mão na cabeça, um pouco envergonhados.

– É Ringo, mamãe!  – Thomas explicou.

– Pode me chamar de Richard, senhora… – ele respondeu, sem saber o nome da mãe dos garotos.

Ela completou, sorridente:

– Ayesha. Ayesha Ognir.

Faith ficou surpresa. Richard?

– Eu não sabia que seu nome era Richard – disse, virando a cabeça para o seu lado.

Thomas e Kahin fizeram um orgulhoso coro, dizendo “eu já sabia”.

– Você achava mesmo que eu me chamava Ringo? – ele respondeu com ironia, bebendo um gole do suco.

Antes de a garota responder, ele já emendou outra pergunta, destinada à Ayesha:

– Faith me contou que vocês não são daqui da Inglaterra.

– Ah, sim! – ela exclamou. – Viemos do Paquistão. As coisas não estavam fáceis por lá. Eu vim grávida da Faith.

Um nó se fez na cabeça de Ringo. Por que, se eram do Paquistão, as mulheres da família não usavam aquele pano na cabeça? Ele se sentiu incomodado de perguntar na frente de todo mundo, mas esse seria mais um dos assuntos que queria tratar com Faith quando a sua família não estivesse por perto.

– Então já faz bastante tempo… – Ringo disse sorrindo para Kahin, que de imediato entendeu a brincadeira.

– Pelo menos uns vinte e cinco anos deve fazer, Ringo – o outro rapaz continuou, caindo na gargalhada ao ver o olhar raivoso de Faith. Ela pôs o copo na mesa, tentando passar certa imponência.

– Eu sou muito mais nova que vocês dois – falou, com a cara emburrada. Ringo e Kahin continuavam rindo da sua reação, derramando metade do suco que tinham na boca.

Eles continuaram a tratar de mais alguns assuntos frívolos por cerca de meia hora. Thomas e Kahin fizeram algumas perguntas sobre os Beatles, e Faith, por incrível que pareça, mostrou-se extremamente interessada na conversa. Quando enfim anoiteceu, Ayesha foi ver como o marido estava. Subindo as escadas, tentando não fazer muito barulho, abriu a porta do escritório de Mansur. Ele olhava para o nada, enquanto fumava um charuto. Permaneceram por um tempo em silêncio, porém, o gelo foi cortado pelo homem:

– Diga-me, Ayesha. Devo me desculpar com aqueles dois? – questionou, ao ver a mulher observando-o.

– Faith e o garoto?

Deu mais uma fungada no fumo e continuou:

– Você sabe que sim. É o melhor a fazer?

Embora, às vezes, lhe fizesse algum agrado, Mansur nunca tratou a esposa com grande carinho. Contudo, sabia que ela era sábia para as coisas da vida.

– Com certeza. Ainda mais porque eu o convidei para passar alguns dias conosco.

Os olhos do marido se arregalaram, e ele começou a tossir. Ayesha achou melhor que tomasse a responsabilidade da filha para ela. Ele acharia muito estranho que Faith chamasse um homem formado daqueles para dentro de casa, e negaria a ideia na mesma hora.

– Como é? Por que raios você fez isso, mulher? – esbravejou, impaciente.

Ela se viu em uma saia justa, mas o respondeu sem hesitar:

– Você por acaso viu o que fez lá embaixo? O menino está assustado até agora! E, diga-se de passagem, ele não é qualquer um. Ele é um dos Beatles, aquela banda que os garotos vivem falando. Você já pensou no que aconteceria se aquele rapaz diz alguma coisa para imprensa? Nunca mais uma alma viva entra naquele seu consultório, Mansur – ela respondeu, irritada.

Ele pensou um pouco, mas logo tomou de novo as rédeas da situação:

– Ótimo. Chame Faith e esse moleque até aqui. Quero ter uma conversa com eles – disse, de forma abrupta.

Ayesha sabia que o marido não seria capaz de dar o mesmo show de algum tempo atrás, e concordou em chamá-los. Avistou-os comendo uns sanduíches na cozinha, e os interrompeu:

– Filha, acabe logo de comer isso daí – a atenção da garota se desviou para a mãe – seu pai pediu que vocês dois fossem ao seu escritório.

Ringo deu uma engasgada com o lanche, olhando de Faith para Ayesha, sucessivamente.

– O quê? – Faith disse, visivelmente assustada. Não tinha tanta vontade de fazer uma visitinha ao pai depois do que aconteceu, em tão pouco tempo.

Ringo acabou de devorar o lanche em alguns instantes, dizendo:

– Será que não é melhor levar Kahin? Vai que ele precisa nos salvar de novo.

Um olhar de reprovação da mãe dos garotos caiu sobre Ringo, enquanto Faith abafou a risada com o sanduíche.

– Vamos logo – disse, empurrando levemente as costas do rapaz.

Quando já chegavam à sala, Faith sussurrou perto de seu ouvido:

– Mais uma dessas e você vai dormir na rua.

Ele deu uma risadinha baixa, completando:

– Você nunca me expulsaria da sua casa.

– Mas a minha mãe sim – Faith falou, dando um sorriso de canto.

Ele interrompeu seus passos um pouco antes de chegar ao escritório, fazendo com que ela também parasse.

– Você não negou o que eu disse.

– Como assim? Não en… – Ringo a interrompeu.

– Sobre me expulsar. Você disse que a sua mãe sim, mas não negou o que eu disse, de que nunca me expulsaria.

Ela olhou em seus olhos, entendendo seu raciocínio.

– Eu não tenho motivos para isso – fez uma pausa –, tenho?

É claro que ela tinha! Nem se conheciam direito, ele pensou.

– Na verdade, sim.

Faith franziu o cenho, e ele continuou:

– Você ainda não me conhece direito… Eu poderia te dar uma lista enorme de defeitos que mudariam toda a sua opinião sobre mim. Você me viraria as costas em dois dias.

O modo que se entreolhavam era profundo, como se quisessem descobrir todos os segredos um do outro apenas por aquele olhar. E, pela primeira vez, no meio de toda aquela situação, Faith percebeu que Ringo estava tirando a máscara de Beatle sorridente e sendo sincero.

– Você acha mesmo que eu sou uma pessoa que vira as costas para alguém?

Ringo não esperava por essa. Ele não estava falando de um simples alguém. Estava falando dele, o Richard, o Ringo Starr. Aquele cara com esposa e filho, que não sabia nem o que estava fazendo ali – a não ser mentindo para uma garota de dezoito ou dezenove anos.

“Embora eu ria e aja como um palhaço

Atrás dessa máscara, eu estou com o rosto triste

Minhas lágrimas estão caindo como a chuva cai do céu

É por ela ou por mim mesmo que eu choro?

 

Eu sou um perdedor

E não sou o que pareço ser”


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